terça-feira, 10 de agosto de 2010

CRÔNICA: Realidade

Quando eu acordo, não posso esquecer de escovar os dentes, pentear os cabelos, fazer a barba e cuspir resíduos de cigarro que fiquei pigarreando a noite inteira. Entro no box do banheiro, olho o meu pinto murcho, dou risada, acho tudo engraçado, falta tesão, falta ereção, mas não falta humor. Meia hora de água caindo na cara. A higiene aqui não conta. Na verdade, só o que conta é o prazer que eu sinto ao notar que minha mente foi pra outro lugar, bem longe, incolor, inodoro e imensurável. Quando volto, lembro que não tenho poço artesiano, e que há muito tempo pago contas exorbitantes de energia elétrica e água. Eu não sou rico, eu sou pobre, um pobre coitado, que não pode esquecer de uma outra coisa muito importante antes de sair de casa.

Ao abrir a geladeira, vejo uma cebola cortada ao meio e uma garrafa d’água já pela metade, parece gelada, mas só parece. Sinto o cheiro de queimado, olho atrás da geladeira e confirmo: queimou. Mas não ligo. É só mais um gasto, eu já estou gasto, o mundo está gasto, e o bolso está escasso. Além do mais, o cheiro me faz lembrar comida – mesmo que seja queimada –, e nada melhor que comida queimada, com um copo de pinga, com dois dedos da boa, pura e velha realidade.

Não dou importância, não sigo frases de filosofia, e não vivo um dia de cada vez. É tudo monótono, mas ao mesmo tempo tão engraçado. As pessoas riem de mim; elas dão risada porque vêem os pombos cagar na minha cabeça, ou porque os carros passam na água e me molham enquanto ando na calçada. A Polícia ri de mim; ela ri porque sou certinho, mas gravei alguns cd’s e esqueci de pagar aos autores seus devidos direitos autorais, e os deixei no carro: fui preso. As crianças riem de mim; eu sou corcunda, meu ombro esquerdo é mais abaixo do que o direito, e elas estão acostumadas com pessoas perfiladas, não só com os seus corpos, mas com as pessoas em sua volta.

As mulheres riem de mim. Minhas olheiras, falta de dinheiro, de vontade, de libido, me tiram qualquer chance de ter sucesso com elas; mas elas riem de mim, caçoam de mim, e no fundo, me adoram. Por que me adoram? Porque eu ainda perco meu tempo exaltando suas qualidades. Elas gostam disso. Mas o prazer morre na falta de dinheiro.

Não ser notado é maravilhoso. Eu gosto disso. Aliás, essa seria a idéia de vida perfeita para mim. Mas como já disse anteriormente, mesmo que com uma conotação ruim, as pessoas, a Polícia, as mulheres e crianças não me deixam em paz. Alvo. Essa é a palavra. Os outros não gostam de ver que eu ando em dissonância em relação ao mundo. Gosto de atravessar a rua devagar. Isso causa revolta nos motoristas: eles querem mostrar o quão poderosos são com suas máquinas carburadas, então eles aceleram pra ver se eu apresso o passo, mas nunca apresso. Por sorte, ainda não morri.

Eu não sei qual é a relação que tenho com o restante do mundo. Minha indiferença causa espanto nas pessoas, e esse espanto se torna raiva, ou qualquer tipo de aversão. Só sei que não gostam de mim.

Quando vou pra faculdade, muito, mas muito do mais do mesmo: os estudantes do meu curso, o Direito, a partir do 3º período, desfilam nos corredores da Universidade. Todos eles, praticamente sem exceção, andam engravatados, com seus Vade Mecum na mão, com olhar de superioridade, e esquecendo o detalhe mínimo, de que a maioria deles sequer irá finalizar o curso, e que são assim como a maioria da população mundial, grandes perdedores em potencial. Mas claro, com elegância.

Isso me remete ao processo fúnebre. Qual a motivação de enterrar alguém de terno e gravata? Pelo que me consta, ainda existe uma maioria populacional que carece de comida e vestimenta. Para manter tradições, e para respeitar o corpo desalmado – que irá apodrecer no máximo em um mês, completamente –, veste-se o morto de cima a baixo, caracterizando-o, e fazendo com que chegue aos portões do céu com boa aparência. E como seria isso? Relativo a uma entrevista de emprego? Não sei, é cada uma...

Ao voltar pra casa, o cheiro de queimado já se alastrou por todos os cômodos. Já estou sem fome. Estou gripado, meu nariz tampado, e como o paladar é feito 90% de olfato, me livro de ter que pensar no que eu poderia estar comendo, e não posso.

Aí tem a cama. E claro, o teto. O teto do meu quarto é o que tenho de mais emblemático na minha vida: ao acordar, o vejo e antes de dormir, também. Algumas coisas mudam, assim como nos seres humanos. Mas a não ser com toques de remodelagem, eles tendem a ruir, criar fissuras, e alguns casos – principalmente os mais envelhecidos – até cair.

Como penso muito nisso, os meus sonhos são feitos basicamente de metáforas análogas ao meu teto. Morro de tédio; não bebo mais. O cigarro ainda é meu amigo, mas ele também é infiel, pois me deixa só quando falta dinheiro. Penso: - Mulheres e cigarros, me deixam saciado por 10 ou 15 minutos, enjôo, mando-os embora, e menos de meia-hora, os quero de volta. Enfim, vícios inerentes à minha existência.

Fecho os olhos. Demoro muito a conseguir dormir, e enquanto isso eu penso no dia que passou, mas nunca penso no dia que vai vir. Não adianta criar conjecturas sobre o futuro. As pessoas sabem que um dia, o mundo irá acabar. Isso sim é realidade e sólido. Mas e o resto? O resto na verdade, é o espaço que é preenchido entre o início da sua vida e o fim do mundo. O engraçado disso, é que se espaço foi feito para ser preenchido, como então muitas pessoas preenchem sua vida de solidão? Não dizem que a solidão é vazia? E como é ser cheio de vazio? Taí outra coisa que não entendo.

Pra deixar a situação ainda pior, meus sonhos são assim como minha vida, muito monótonos. Não há gnomos, nem viagens astrais. Não há volta ao passado, nem a oportunidade de ser outra pessoa. Não tem prospecção ao futuro, nem auto-análises frutíferas; e são inveriavalmente escassos de entusiasmo.

No final, tudo se repete: essa é a minha dose diária de realidade.

VINICIUS CANOVA PIRES

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