sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Quando não temos em que se apegar

Desde os tempos mais remotos, os seres humanos procuram um respaldo plausível e bem justificável para explicar a razão de algumas vertentes em seu comportamento. Alguns homens denominados de “bem”, buscam na religião uma densa desculpa para praticar atos animalescos, destacando-se como exemplo a temível santa inquisição. Outras pessoas mesmo não descartando suas religiões herdadas, embasam suas ações em ideologias que na maioria das vezes nada têm a acrescentar ao mundo. Utilizam-se dessas idéias de jerico, para se sentirem de certa forma “adotadas” por alguma coisa. Algumas pessoas precisam impor suas idéias, seus conceitos, e para conseguir isso muitas vezes, tendem a se impor pela força bruta.

Infelizmente, apesar da derrocada do idealismo do Führer e com a difusão da informação após a guerra fria, celebrada pela chegada da globalização, algumas pessoas que se utilizam da facilidade de divulgação de praticamente tudo que acontece no mundo pela internet, começaram a espalhar novamente os desmandos de Adolf Hitler, formando pequenas células de atuação em todo o mundo. No Brasil, um desses grupos extremistas é a gangue denominada White Power (do inglês: poder branco), que determinada aos seus adjuntos que espalhem mensagens de intolerância racial, repúdio ao homossexualismo entre outros inúmeros preconceitos contra pessoas que não fazem parte de sua casta, com o mesmo objetivo do autor póstumo Adolf Hitler, que foi derrotado a muito custo pelos Aliados na segunda guerra mundial.

Após morrer em Abril de 1945, suas idéias e conceitos foram se dizimando aos poucos, o orgulho da grande maioria do povo alemão durante a 2ª guerra fora trocado pelo sentimento de vergonha. Troca de sentimento este, que não se repete em seu esquadrão novo de asseclas. A idéia contínua de que deve e há de existir uma raça superior no mundo, capaz de resolver problemas que variam entre doenças e questões sociais problemáticas como a própria pobreza, é a combustão que dá força e movimento a esses grupos formados por jovens e adultos de variadas idades. Porém, alguns desses juvenis integrantes de grupos extremistas sequer sabem coisas básicas sobre história, trocam a pratica da leitura pela deliberada vontade de exprimir ódio e ressentimento.

Em suma, todo ser humano precisa de alguma desculpa para agir. Seja social, política, comportamental, ideológica, religiosa, filosófica, as atitudes provém de uma devoção que muitas vezes é cega, e que tem o intuito de externar sentimentos que dificilmente faríamos caso não nos apegássemos a alguma coisa.

Vinicius Canova Pires

O diferencial na internet: Internet Relay Chat (IRC)

Diariamente nos deparamos com alguns veteranos nesse jogo louco que chamo de vida. E uma das frases preferidas deles para retratar algo majestoso que ocorreu em sua época e que hoje é só lembrança, é: “Quem viu, viu. Quem não viu, não verá jamais”. Engraçado é que pra quem ouve, parece a mesma ladainha de sempre da velharada. O costume débil de ficarem horas e horas divagando em frases rebuscadas para caracterizar a infância adocicada e a juventude porra-louca. Eu sempre pensei nisso com certo ar fadado, sem paciência para ouvir. Mas hoje comecei a concordar que em alguns momentos é necessário compartilhar as coisas boas que vivemos, principalmente com pessoas que jamais saberão o gosto de certas coisas.

No caso do texto de hoje, me refiro ao mundo nerdiano, um mundo que eu jamais fui capaz de respeitar, mas que convivi e convivo até hoje no meu dia-a-dia. Hoje tive a chance de voltar a usar novamente o mIRC (quem não sabe o que é, sugiro que leia o texto na Wikipédia, é bem esclarecedor)¹. A sensação inicial foi uma nostalgia que percorreu meu corpo todo e foi parar na superfície da minha pele, causando um arrepio em meus braços. Lembrar de como era aquela época, antes da criação da comunidade virtual que chamam de Orkut, e antes da difusão do MSN Messenger, me traz a tona bons sentimentos em relação a minha própria infância e pré-adolescência. Era algo diferente, que mesmo em seu ápice de usuários na principal rede brasileira, atingiu no máximo 60.000 usuários.

O MSN e o ORKUT tornaram a inclusão digital uma verdade que antes de sua existência era uma esperança, e hoje com certeza descobriu-se que a realidade é outra; um desastre total. Para manejar o mIRC mesmo a pessoa mais ignorante, teria que estar integrada com o mínimo de comandos para facilitar o seu uso. E esse uso constante do IRC forçava as pessoas a se informarem mais sobre o que estavam usando, mesmo que o script de sua preferência lhe fizesse o favor de sintetizar os comandos e programá-los para uma utilização mais facilitada do usuário. Não era apenas um “bate-papo” como algumas pessoas gostavam de designar. O IRC era uma empresa, mas comandada por pessoas sábias e que costumavam flexibilizar-se de acordo com a vontade e a critica dos seus freqüentadores.

Com a “morte” do IRC, a internet e o dinamismo entre as pessoas se resumiram a incessantes conversas que começam e terminam sempre do mesmo jeito no Messenger, a vadiagem e a pedofilia crescente entre os usuários do Orkut, e um acréscimo também nos crimes de internet em geral. Mas creio eu, que a humanidade se resume a isso: os seres humanos sempre procuram a forma mais fácil de tocar suas vidas. Pouco importa as conseqüências que isso representaria numa sociedade como um todo. O brasileiro principalmente tomou o “cada um por si” como sua tônica de vida e decidiu viver sua vida a partir desse lema. Tristeza para alguns, felicidade para outros. Mas eu estou feliz, porque posso encher minha boca (dedos) para proferir as últimas palavras desse texto: Quem viu, viu! Quem não viu, jamais verá!

¹: http://pt.wikipedia.org/wiki/MIRC

Vinicius Canova Pires

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Heil Ratzinger!




Saúdem o Papa Bento XVI! Saúdem a Igreja Católica! Saúdem a Santa Inquisição! E principalmente, saúdem a mentira do Holocausto! (sic) Opa! Mentira? E quem é que disse que o Holocausto é uma mentira? Bom, além de alguns escritores que se escondem atrás de pseudônimos, temos uma figura cristã em questão: O bispo ultraconservador inglês Richard Williamson. Que foi reabilitado pelo papa Joseph Alois Ratzinger, após passar 20 anos excomungado. O mais engraçado na história toda, é que um padre cuja infância tenha sido atrelada ao contexto nazista de Adolf Hitler, em um ato solidário de pura benevolência tenha aceitado novamente o bispo Williamson.

Será que somos tão cegos e ingênuos mesmo? Absolutamente ninguém cogita a possibilidade de Ratzinger ainda simpatizar com o idealismo de supremacia de Hitler. É normal as pessoas cometerem equívocos, com conseqüências desastrosas. Mas o medo de errar, não pode impossibilitar que alguns de nós com um pouco mais de voz-ativa se retenha e não expresse opinião. Diariamente estamos acostumados com as baboseiras proferidas pelo excelentíssimo papa Bento XVI, como condenar uma família por querer desligar os aparelhos que fazem com que uma filha já há 17 anos em coma, sobreviva. Ativistas da Igreja católica se acham no direito de jogar pedras na família e julgam o governo por dar o aval necessário para que finalmente uma novela trágica termine. E a angustia de uma família castigada pela vida evapore.

Todos os dias lemos nos jornais cibernéticos ou impressos: “O Papa condenou”, “A igreja católica é contra”, etc. E quem são eles agora, depois do maior holocausto do mundo conhecido como Santa Inquisição, para julgar quem está certo e quem está errado? Há uma piada de mau gosto sendo contada na história do mundo. E essa piada muda o cotidiano de várias pessoas ao redor do planeta. Porém, algumas pessoas não agüentam mais esse tipo de piada como é o caso de Giuseppe Englaro, que é pai da mulher que estava em coma e que lutou bravamente durante 17 anos, esperançoso de que um dia a filha voltasse à vida. Admitiu tristemente, que chega um momento em que já não há mais o que fazer. E que a única saída é fazer com que a filha tenha uma morte digna e sem dor. E claro, a Igreja Caótica com o seu Führer, criam entraves ridículos para impor uma supremacia que para eles deve existir apesar da dor de qualquer pessoa no mundo. Heil Ratzinger!

Vinicius Canova Pires

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Duas décadas



No dia vinte e sete de janeiro de mil novecentos e oitenta e nove, nascia um pedacinho de carne roxa, ofegante, que mais parecia um rato do que um bebê recém nascido. Posteriormente as pessoas mal poderiam acreditar que aquele semi-rato de laboratório, se tornaria uma criança obesa com cento e trinta quilos. Porém, como minha mãezinha querida costuma dizer: - Era gordo, mas era feliz. Muito mais feliz. -, E hoje, faço as palavras dela, as minhas. Infelizmente com a idade o nosso senso critico fica mais aguçado, a gente vai olhando ao redor e percebendo que cada vez mais o ciclo de pessoas em volta da gente vai enxugando, ou não. Algumas pessoas escolhem a vida de relações públicas, ser amigo e querido por todos. Mas talvez, por azar meu, a minha consciência não me permite tal postura.

O tempo muitas vezes é tratado como inimigo. Vejo isso de forma diferente hoje em dia; só o tempo é capaz de definir o que você é. Com o passar do tempo, com a convivência e o entendimento sobre as pessoas, é possível usar esse tempo á favor de sí. Olhar para trás e enxergar um Vinicius bobão e querido por todos tem um significado bonito e traz à tona uma nostalgia incrível. Como se eu pudesse tocar no meu passado. Ver, sentir, mudar, compreender. E isso tudo é muito bonito, e claro, que mesmo sendo muito diferente hoje, eu não mudaria nada no meu passado. Porque foi por esse caminho que eu aprendi a ser do jeito que sou. Provavelmente quem ler esse texto vai pensar que estou querendo dizer que sou grande coisa. Muito pelo contrário. Pra ser alguma coisa na vida, é preciso estender seus tentáculos. E eu prefiro deixar os meus curtos, e atingir só à quem me apraz atingir.

No decorrer da minha vida, tive pouquíssimas amizades sinceras. Mas eu agradeço todos os dias à Deus (isso mesmo, você não leu errado) por ter encontrado essas pessoas. Dentro da minha própria casa sou cercado por três sentinelas que não me deixam faltar nada. Não deixam nada de ruim acontecer pra mim. E que fazem o possível pra que eu não dê um passo em falso, ou cometa erros que não possa consertar. Fora da minha casa, encontrei outras pessoas que hoje cito à todos como se fossem da minha família. Pessoas com quem tive o prazer de contracenar nesse grande espetáculo cinematográfico que é a vida. Eu não citaria nomes. Medir esse tipo de sentimento é besteira. Mas as pessoas que fazem parte desse rol escasso de pessoas que amo, sabem o sentimento que tenho por elas.

Sinceramente, o texto de hoje é totalmente sem nexo. Estou sem inspiração pra escrever, e acho que o faço apenas pra manter uma tradição pessoal de escrever qualquer coisa no dia do meu nascimento. No mais. Obrigado.

Vinicius Canova Pires

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A única tenra idade


Existe uma época em que tudo lhe é permitido: errar, destruir, fazer, desfazer, enganar, culpar, mentir, transmitir entre outras coisas que cabem as coisas boas e as coisas más dessas decisões. Entretanto é uma época que deixamos escapar pelos nossos dedos de forma fácil, não por nossa culpa, e sim, porque é uma idade em que o tempo costuma ceifar tudo muito rápido, abusando de nossa delicada inocência. Essa época também nos remete a uma porção de reflexos. Quem é que não se lembra daquele bolo caseiro da avó? Ou a primeira bola de futebol? Ou simplesmente aquela tentativa frustrada de nossos pais de fazer com que viéssemos a gostar de coisas que simplesmente não nos apraz. (no meu caso, meu pai tentou me corromper com uma camisa do Internacional). É uma época milagrosa.

Todas características de uma época que guardamos com carinho em nosso corações. Todos os momentos bons que passamos juntos em família e que agradecemos ter passado, porque há coisas que simplesmente passaram, e jamais o trem das oportunidades carregará novamente tais oportunidades. Não que tudo isso se tenha perdido no vão da vida; é sobretudo as mágoas do não aproveitamento de tais oportunidades que nos fazem lamuriar a vida. E isso, tem uma tamanha influencia em nosso dia-a-dia, que acabamos por nos esquecer que a “nossa” vida depende da nossa vontade. A vida para o resto do mundo continua. Tenha você uma doença, tenha sido mutilado, tenha sido demitido, tenha perdido um ente querido. Para os outros, ela continuará.

Precisamos fixar os nossos pés no chão, e colocar a nossa cabeça inclinada para o sol nascente. Todos os dias deixamos as oportunidades passarem pelas nossas mãos. Culpamos as coisas que de ruim acontecem em nossa volta. Culpamos nossos pais, nossas mães, amigos, colegas, o trabalho, a faculdade, enfim. Cada dia que passa, fica extremamente mais difícil olhar para o nosso próprio umbigo, que seria finalmente, admitir que o fracasso em excesso tenha partido de nós mesmos para com os outros, e não vice-versa. Quero deixar claro, que aqui não desejo fazer crônicas, textos, resenhas, ou qualquer outro tipo de texto de auto-ajuda. Aliás, este que vos fala, odeia esse tipo de texto. O que busco é uma própria reflexão sobre as coisas que deixamos passar sem perceber, e que ainda existe tempo para pegar outros trens, em outras estações. Também para lembrar-lhes o seguinte: já tivemos nossa tenra idade, o momento em que nos era permitido errar foi-se. Agora... a cada passo em falso, corresponde a uma derrota em nossas vidas. Lembre-se de sua mais tenra idade, e perceba de uma vez por todas que ficou pra trás.

Vinicius Canova Pires


segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O empalamento de minh’alma



Gostaria que os métodos de tortura tivessem contemplado o seu fim juntamente com o final da santa inquisição. Infelizmente ainda me sinto submetido à isso tudo. Claro que se eu colocar de forma física, nunca conseguiria materializar hoje, quão dolorosa foi aquela época. Pessoas julgando você por fazer sexo com o Satanás, que maravilha! Bem que William Shakespeare disse: “O demônio pode citar as escrituras para justificar seus fins”. E hoje é diferente? Igreja católica com sua demanda incessante de padres pedófilos (perdoai a generalização, oh Pai) ou a igreja evangélica e seus asseclas dinheristas como o caso de um dos nossos queridos donos de redes de televisão e família? Enfim, uma de nossas queridas deputadas estaduais ***** **** disse bem ao nosso mais querido ainda governador na legislatura passada: “Nós não vamos mudar o mundo, então vamos pra praia, vamos pro sítio, e encher nossos bolsos.” Bem, talvez não seja um retrato fiél do que ela efetivamente disse, mas quem se importa? Eu? Eu não.

Eu me abstive de manifestar opiniões de ordem política em meus textos, e até de ordem religiosa, quem sabe uma ou outra manifestação de cume agnóstico, mas nada além disso. Eu só não consigo compreender hoje porque todo o marasmo de nós mesmos, se a gente vive a mesma merda da idade média? Ok, pode até parecer exagero, mas se pensarmos bem, com olhar cirúrgico, com uma perspectiva bem mais realista do que o oba-oba cotidiano, veríamos que nossa vida está direcionada a gente tão vagabunda e mau caráter quanto o personagem que inspirou o Conde Dracula de Bram Stocker, o príncipe e outro queridíssimo Vlad Tepes. A grande diferença fora o suplício físico é a própria vontade de descartar o suplício mental (quero aqui, manifestar a idéia de que simplesmente vivemos, quando deveríamos lutar). Hoje nós não somos obrigados a coexistir com qualquer tipo de tortura. Nós temos constituição, temos leis, vivemos a possibilidade de falar em público, manifestar opinião pra quem quiser ou não nos ouvir. E mesmo assim, não fazemos nada. O que há de errado? Talvez eu saiba.

Não posso mentir pr’eu mesmo, nem pra quem possivelmente lerá algum texto meu. Conheci um dos métodos de tortura mais famosos um dia desses, sugestão de alguns amigos que gostam de trocar vagas idéias durante uma refeição ou outra. Lí uma porrada de textos sobre o empalamento, e digo à quem quiser: Estamos mais no espeto do que jamais estivemos antes. Por quê? Simples. Nós escolhemos estar. Quem elegeu os nossos carrascos? Quem foi que incutiu o livre arbítrio em outrem para nos humilhar e passar vexame? Nós mesmos. O que eu posso dizer? Que é mais um texto de utilidade pública? Não, nem posso dizer isso, até porque eu sempre caio em contradição, eu não seria um bom militante em qualquer área de manifestação, mas em meus lapsos de questionamentos e quando eu consigo um “quê” de divagação intelectual tenho vontade de expressar algumas coisas que considero ter uma significante relevância no cotidiano de um ser humano comum.

Finalizando. Livre arbítrio é uma expressão, que se pisarmos no chão e olharmos pra frente, não conseguiríamos observar a materialidade dela. Afinal de contas, poder fazer o que bem entender, quando bem quiser, ainda é um privilégio de poucos. Mesmo que se tenha vontade, discernimento, e compreensão ainda é preciso agregar uma série de outros fatores para que se tenha a dita liberdade de expressão. A dificuldade que temos em externar nossos pensamentos e atitudes, é que facilitam o desuso da expressão, aliás, hoje em dia é fácil qualquer pessoa falar em livre arbítrio em algum discurso moralista, porém, como opinião própria, eu não vejo que seja mais tão fácil assim. Então já que estou confessando um crime, quero dizer que apesar de mentalizar e dialogar horas comigo mesmo, pensando exatamente todas essas coisas, é que resolvi que: não vou fazer nada. É, é exatamente isso que estou dizendo. Não vou fazer nada, porque pra mim é mais fácil ver o noticiário, ler um jornal, dar minha opinião, e cruzar os braços. Mas sinceramente, eu ainda creio na mais forte das esperanças, que um dia há de vir alguém que celebre o dom da atitude. E que tenha o poder da palavra, e que alcance enfim o sentido real de livre arbítrio. Até lá, quero convidar todos vocês para jantar frango assado e assistirem ao meu empalamento, o empalamento de minh’alma. Bom apetite.


Vinicius Canova Pires


domingo, 7 de setembro de 2008

Meu último e meu primeiro texto (vida e morte respectivamente)

Lembro que pouco antes da minha morte, uma morte sem graça, digna de quem passou a vida inteira atrás de folhas de caderno, máquinas de escrever e computadores, datilografava um texto sobre golfinhos (enfatizando a idéia de que tudo realmente é uma merda pouco antes de morrer). O mais hilário disso tudo, é que eu consegui ainda, assinar a matéria, infelizmente como aqui a gente perde o contato com aquele mundo anterior, não posso dizer se foi publicada em anexo à alguma mensagem de luto – mensagens que já escrevi diversas vezes à colegas, amigos e familiares – é, possívelmente alguém o fez, vai saber.

Felizmente minha morte não foi dolorosa, apenas me impressionou o fato de que em meu último resquício de consciência eu me desse conta de que o sangue jorrava de meus ouvidos e algumas outras cavidades em meu rosto. Acidente vascular cerebral. E não era pra menos, afinal de contas minha vida sempre foi regada à cigarros, uísque, e comida pesada. Claro que eu não me arrependo. Morrer cedo ou morrer tarde? Que diferença faz? O ponto vital é viver! E eu vivi! Dentro do jornalismo convivi com o mais exagerado puritanismo, e sei qual o destino: morrer com cento e poucos anos, e não ter feito nada que desse um pingo de prazer. Nisso eu não pequei, ao menos ao meu ver.

Ah! As pessoas com certeza querem saber da transição. Ah, a transição, ufa! Se você já fez o trajeto de Porto Velho à São Paulo de ônibus, é provável que ainda falte um bocado pra compreender a magnitude tediosa dessa empreitada. E nem sequer escolhemos! Já estou há algum tempo aqui, tempo suficiênte pra dizer que por enquanto não há nada demais. O que difere um pouco, é que já não existe mais a parte física. Sou apenas consciência, sózinho, com um bocado de espaço em branco para ser preenchido. Não sei se é uma missão, se Deus realmente existe, mas aqui não é tão divertido quanto lá na terra.

O que gosto daqui é que eu tenho acesso irrestrito à minha lembrança. Posso buscar tudo que eu já fiz, desde o momento de minha concepção (Pulei essa parte, realmente consegue ser mais tedioso do que o que vivo aqui, agora). Posso recordar minha infância, o primeiro cigarro, a primeira namorada, a primeira briga, a perda da virgindade, os valentões da escola, o meu primeiro e suado emprego. A dificuldade que era estudar, ler e trabalhar, tendo que harmoniosamente relacionar essas atividades. Aqui é o contrário do que pensei, achei que caíria no inferno, porque sim, eu acredito em Deus, mas nunca vivi de acordo com os princípios dogmáticos de qualquer religião, nem sequer respeitei os mandamentos, visto que já cobicei muito as mulheres de meus semelhantes.

Mas isso é só um ínfimo exemplo de tudo de ruim que eu tenha contribuído para o mundo e para mim. Já me meti com agiotagem, prostituição, casa de jogos, já bati em mulheres, enfim. Trilhei o caminho que os cristãos diriam ser do inferno. Mas estou aqui. “Vivo” em sã consciência, e se o meu castigo divíno seja pagar essa penitência tendo como parceria eterna a minha voz sucumbida nesse vácuo que eu nem sei se existe, que seja assim. Acho que pode ser divertido. Eu adoro ser desafiado. Apesar de encarar isso com a maior naturalidade possível.

Golfinhos. Que tema mais ridículo, onde é que eu estava com a cabeça? Um jornalista combativo, com milhares de processos nas costas em decorrência de diversas denuncias da “politicagem” baderneira. Eu terminei exatamente, escrevendo um texto estúpido sobre a extinção de golfinhos. Deprimente. Mas isso é bom, que seja traçada uma linha cronológica da minha vida jornalistica, eu alcancei o ápice no começo, e fui degradando e perdendo o rumo de acordo com os anos que se passaram.

E caí pra nós. Não por ter deixado de ser competente, mas o jornalismo em sí, oriundo do esforço físico e do stress mental que era conseguir uma matéria, é hoje é disseminada via internet por mensagens de e-mail e spams. Resumindo: fiquei ultrapassado. As novas tecnologias me tornaram um jornalista obsoleto, e o que me restou foram as notícias do mundo agora. Como a extinção dos golfinhos, a morte da Dercy Gonçalves e outras coisas sem importância.

Agora mais uma vez, me vejo obrigado à viver de acordo com outras regras. Esse contexto que mudou de uma sala com dois ventiladores de teto, cheiro de cigarro e de papel quente, para um espaço vazio e branco, onde tudo que eu penso e divago fica escrito em uma parede também branca, como se fosse um histórico pós-morte. Sinto saudades das pessoas. Minha mãe, meu pai, meus filhos e minhas 3 mulheres. Eles foram o que de melhor a vida me rendeu. Sem hesitar.

Minha mãe era uma santa. A mulher que mais responsável que já existiu. Me ensinou tudo direito, com todos os pingos em seus respectivos “is”, mas eu, fiz questão de não levar nada à sério e cometer excessos de erros que me renderam expulsões de diversas escolas, de universidades, exonerações no trabalho e de minha própria casa. O meu pai tratava de tudo com mais rigor, nunca lhe faltou prudência, mas sempre atrelada à seu comportamento violento. Saí de casa quando ele bateu na minha mãe depois de uma bebedeira, e eu tive que quebrar seu nariz pra que aprendesse à respeitar as mulheres.

Talvez, se eu soubesse que fosse agredir uma mulher no futuro, tivesse batido nele apenas por ser minha mãe, sem usar de discursos demagógicos sobre direitos iguais entre homens e mulheres. Eu odeio remoer o passado, estou sentindo tristeza, e humilhação profunda, o que me remete ao arrependimento. Pode ser essa a questão. Lembrar das coisas, pensar sobre elas, e reagir. Simplesmente reagir, para que conste em algum bloco de notas quais as formatações de meu comportamento pós-morte. O que me deixa puto, é claro. Quero respostas.

Vou parar de pensar, não quero ninguém entrando no meu íntimo. Não quero que ninguém saiba nada sobre mim. Não quero ser o idiota monitorado por entidades cafajestes que sequer se pronunciam. Se eu parar de pensar o texto acaba, ninguém me analisa, e enfim, estou morto novamente. Pois bem, bem vindos ao meu enterro, e agora eu sou o anfitrião, bebida e petiscos por minha conta, agora é liberado falar mal de mim, afinal de contas é o que todo mundo faz, cuspam no morto, cuspam em mim, e salvem os golfinhos.

Vinicius Canova Pires