segunda-feira, 15 de setembro de 2008

O empalamento de minh’alma



Gostaria que os métodos de tortura tivessem contemplado o seu fim juntamente com o final da santa inquisição. Infelizmente ainda me sinto submetido à isso tudo. Claro que se eu colocar de forma física, nunca conseguiria materializar hoje, quão dolorosa foi aquela época. Pessoas julgando você por fazer sexo com o Satanás, que maravilha! Bem que William Shakespeare disse: “O demônio pode citar as escrituras para justificar seus fins”. E hoje é diferente? Igreja católica com sua demanda incessante de padres pedófilos (perdoai a generalização, oh Pai) ou a igreja evangélica e seus asseclas dinheristas como o caso de um dos nossos queridos donos de redes de televisão e família? Enfim, uma de nossas queridas deputadas estaduais ***** **** disse bem ao nosso mais querido ainda governador na legislatura passada: “Nós não vamos mudar o mundo, então vamos pra praia, vamos pro sítio, e encher nossos bolsos.” Bem, talvez não seja um retrato fiél do que ela efetivamente disse, mas quem se importa? Eu? Eu não.

Eu me abstive de manifestar opiniões de ordem política em meus textos, e até de ordem religiosa, quem sabe uma ou outra manifestação de cume agnóstico, mas nada além disso. Eu só não consigo compreender hoje porque todo o marasmo de nós mesmos, se a gente vive a mesma merda da idade média? Ok, pode até parecer exagero, mas se pensarmos bem, com olhar cirúrgico, com uma perspectiva bem mais realista do que o oba-oba cotidiano, veríamos que nossa vida está direcionada a gente tão vagabunda e mau caráter quanto o personagem que inspirou o Conde Dracula de Bram Stocker, o príncipe e outro queridíssimo Vlad Tepes. A grande diferença fora o suplício físico é a própria vontade de descartar o suplício mental (quero aqui, manifestar a idéia de que simplesmente vivemos, quando deveríamos lutar). Hoje nós não somos obrigados a coexistir com qualquer tipo de tortura. Nós temos constituição, temos leis, vivemos a possibilidade de falar em público, manifestar opinião pra quem quiser ou não nos ouvir. E mesmo assim, não fazemos nada. O que há de errado? Talvez eu saiba.

Não posso mentir pr’eu mesmo, nem pra quem possivelmente lerá algum texto meu. Conheci um dos métodos de tortura mais famosos um dia desses, sugestão de alguns amigos que gostam de trocar vagas idéias durante uma refeição ou outra. Lí uma porrada de textos sobre o empalamento, e digo à quem quiser: Estamos mais no espeto do que jamais estivemos antes. Por quê? Simples. Nós escolhemos estar. Quem elegeu os nossos carrascos? Quem foi que incutiu o livre arbítrio em outrem para nos humilhar e passar vexame? Nós mesmos. O que eu posso dizer? Que é mais um texto de utilidade pública? Não, nem posso dizer isso, até porque eu sempre caio em contradição, eu não seria um bom militante em qualquer área de manifestação, mas em meus lapsos de questionamentos e quando eu consigo um “quê” de divagação intelectual tenho vontade de expressar algumas coisas que considero ter uma significante relevância no cotidiano de um ser humano comum.

Finalizando. Livre arbítrio é uma expressão, que se pisarmos no chão e olharmos pra frente, não conseguiríamos observar a materialidade dela. Afinal de contas, poder fazer o que bem entender, quando bem quiser, ainda é um privilégio de poucos. Mesmo que se tenha vontade, discernimento, e compreensão ainda é preciso agregar uma série de outros fatores para que se tenha a dita liberdade de expressão. A dificuldade que temos em externar nossos pensamentos e atitudes, é que facilitam o desuso da expressão, aliás, hoje em dia é fácil qualquer pessoa falar em livre arbítrio em algum discurso moralista, porém, como opinião própria, eu não vejo que seja mais tão fácil assim. Então já que estou confessando um crime, quero dizer que apesar de mentalizar e dialogar horas comigo mesmo, pensando exatamente todas essas coisas, é que resolvi que: não vou fazer nada. É, é exatamente isso que estou dizendo. Não vou fazer nada, porque pra mim é mais fácil ver o noticiário, ler um jornal, dar minha opinião, e cruzar os braços. Mas sinceramente, eu ainda creio na mais forte das esperanças, que um dia há de vir alguém que celebre o dom da atitude. E que tenha o poder da palavra, e que alcance enfim o sentido real de livre arbítrio. Até lá, quero convidar todos vocês para jantar frango assado e assistirem ao meu empalamento, o empalamento de minh’alma. Bom apetite.


Vinicius Canova Pires


domingo, 7 de setembro de 2008

Meu último e meu primeiro texto (vida e morte respectivamente)

Lembro que pouco antes da minha morte, uma morte sem graça, digna de quem passou a vida inteira atrás de folhas de caderno, máquinas de escrever e computadores, datilografava um texto sobre golfinhos (enfatizando a idéia de que tudo realmente é uma merda pouco antes de morrer). O mais hilário disso tudo, é que eu consegui ainda, assinar a matéria, infelizmente como aqui a gente perde o contato com aquele mundo anterior, não posso dizer se foi publicada em anexo à alguma mensagem de luto – mensagens que já escrevi diversas vezes à colegas, amigos e familiares – é, possívelmente alguém o fez, vai saber.

Felizmente minha morte não foi dolorosa, apenas me impressionou o fato de que em meu último resquício de consciência eu me desse conta de que o sangue jorrava de meus ouvidos e algumas outras cavidades em meu rosto. Acidente vascular cerebral. E não era pra menos, afinal de contas minha vida sempre foi regada à cigarros, uísque, e comida pesada. Claro que eu não me arrependo. Morrer cedo ou morrer tarde? Que diferença faz? O ponto vital é viver! E eu vivi! Dentro do jornalismo convivi com o mais exagerado puritanismo, e sei qual o destino: morrer com cento e poucos anos, e não ter feito nada que desse um pingo de prazer. Nisso eu não pequei, ao menos ao meu ver.

Ah! As pessoas com certeza querem saber da transição. Ah, a transição, ufa! Se você já fez o trajeto de Porto Velho à São Paulo de ônibus, é provável que ainda falte um bocado pra compreender a magnitude tediosa dessa empreitada. E nem sequer escolhemos! Já estou há algum tempo aqui, tempo suficiênte pra dizer que por enquanto não há nada demais. O que difere um pouco, é que já não existe mais a parte física. Sou apenas consciência, sózinho, com um bocado de espaço em branco para ser preenchido. Não sei se é uma missão, se Deus realmente existe, mas aqui não é tão divertido quanto lá na terra.

O que gosto daqui é que eu tenho acesso irrestrito à minha lembrança. Posso buscar tudo que eu já fiz, desde o momento de minha concepção (Pulei essa parte, realmente consegue ser mais tedioso do que o que vivo aqui, agora). Posso recordar minha infância, o primeiro cigarro, a primeira namorada, a primeira briga, a perda da virgindade, os valentões da escola, o meu primeiro e suado emprego. A dificuldade que era estudar, ler e trabalhar, tendo que harmoniosamente relacionar essas atividades. Aqui é o contrário do que pensei, achei que caíria no inferno, porque sim, eu acredito em Deus, mas nunca vivi de acordo com os princípios dogmáticos de qualquer religião, nem sequer respeitei os mandamentos, visto que já cobicei muito as mulheres de meus semelhantes.

Mas isso é só um ínfimo exemplo de tudo de ruim que eu tenha contribuído para o mundo e para mim. Já me meti com agiotagem, prostituição, casa de jogos, já bati em mulheres, enfim. Trilhei o caminho que os cristãos diriam ser do inferno. Mas estou aqui. “Vivo” em sã consciência, e se o meu castigo divíno seja pagar essa penitência tendo como parceria eterna a minha voz sucumbida nesse vácuo que eu nem sei se existe, que seja assim. Acho que pode ser divertido. Eu adoro ser desafiado. Apesar de encarar isso com a maior naturalidade possível.

Golfinhos. Que tema mais ridículo, onde é que eu estava com a cabeça? Um jornalista combativo, com milhares de processos nas costas em decorrência de diversas denuncias da “politicagem” baderneira. Eu terminei exatamente, escrevendo um texto estúpido sobre a extinção de golfinhos. Deprimente. Mas isso é bom, que seja traçada uma linha cronológica da minha vida jornalistica, eu alcancei o ápice no começo, e fui degradando e perdendo o rumo de acordo com os anos que se passaram.

E caí pra nós. Não por ter deixado de ser competente, mas o jornalismo em sí, oriundo do esforço físico e do stress mental que era conseguir uma matéria, é hoje é disseminada via internet por mensagens de e-mail e spams. Resumindo: fiquei ultrapassado. As novas tecnologias me tornaram um jornalista obsoleto, e o que me restou foram as notícias do mundo agora. Como a extinção dos golfinhos, a morte da Dercy Gonçalves e outras coisas sem importância.

Agora mais uma vez, me vejo obrigado à viver de acordo com outras regras. Esse contexto que mudou de uma sala com dois ventiladores de teto, cheiro de cigarro e de papel quente, para um espaço vazio e branco, onde tudo que eu penso e divago fica escrito em uma parede também branca, como se fosse um histórico pós-morte. Sinto saudades das pessoas. Minha mãe, meu pai, meus filhos e minhas 3 mulheres. Eles foram o que de melhor a vida me rendeu. Sem hesitar.

Minha mãe era uma santa. A mulher que mais responsável que já existiu. Me ensinou tudo direito, com todos os pingos em seus respectivos “is”, mas eu, fiz questão de não levar nada à sério e cometer excessos de erros que me renderam expulsões de diversas escolas, de universidades, exonerações no trabalho e de minha própria casa. O meu pai tratava de tudo com mais rigor, nunca lhe faltou prudência, mas sempre atrelada à seu comportamento violento. Saí de casa quando ele bateu na minha mãe depois de uma bebedeira, e eu tive que quebrar seu nariz pra que aprendesse à respeitar as mulheres.

Talvez, se eu soubesse que fosse agredir uma mulher no futuro, tivesse batido nele apenas por ser minha mãe, sem usar de discursos demagógicos sobre direitos iguais entre homens e mulheres. Eu odeio remoer o passado, estou sentindo tristeza, e humilhação profunda, o que me remete ao arrependimento. Pode ser essa a questão. Lembrar das coisas, pensar sobre elas, e reagir. Simplesmente reagir, para que conste em algum bloco de notas quais as formatações de meu comportamento pós-morte. O que me deixa puto, é claro. Quero respostas.

Vou parar de pensar, não quero ninguém entrando no meu íntimo. Não quero que ninguém saiba nada sobre mim. Não quero ser o idiota monitorado por entidades cafajestes que sequer se pronunciam. Se eu parar de pensar o texto acaba, ninguém me analisa, e enfim, estou morto novamente. Pois bem, bem vindos ao meu enterro, e agora eu sou o anfitrião, bebida e petiscos por minha conta, agora é liberado falar mal de mim, afinal de contas é o que todo mundo faz, cuspam no morto, cuspam em mim, e salvem os golfinhos.

Vinicius Canova Pires

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O denominador comum















Existem dois fatores que fazem com que os seres humanos que em vida são totalmente desproporcionais em pesos e medidas, se tornem unicamente iguais. Dois pontos, um cerne, vida e morte. Nascimento e a caracterização de cada parte fisiológica, uma vida que aí sim, se caracteriza pela desigualdade total que um ser humano pode extrapolar ao outro, para só assim então, morrer. Eis o denominador comum: a morte. O inicio do fim. O começo de outra vida, ou só o final silencioso de uma vida ligeira, passageira e sem graça? Vai saber. Até então só existem especulações sobre o que á a morte, o que é a vida, enfim. Ninguém saberá até morrer.

Infelizmente para o seu locutor extremamente céptico, a morte nada mais é, do que simplesmente o corpo servir de alimento as larvas, minhocas e animais que ajudam na decomposição do corpo morto e putrefato. Aí outro denominador comum. No final de tudo, mesmo quem que em vida, não alcançou nada, não serviu pra nada, tem o seu papel fundamental. Serve de alimento aos bichos mais grotescos que coabitam o solo terrestre. Só os que se salvam desse destino, são as pessoas, cujos familiares banquem um forno crematório, e uma urna para salvar seus restos mortais. Idiotice pura. Afinal de contas, um dia, tudo será perdido, assim como a própria carne podre dentro de uma minhoca qualquer.

A vida humana é mais frágil do que a gente pensa. É como dizem: uma pessoa pode descer de seu carro em uma rodovia para prestar socorro a uma vitima de acidente corriqueiro, e morrer atropelada por um ônibus ou caminhão, antes mesmo que possa pensar em fugir. Destino? Será que existe algum doente mental que acredita em destino? Azar? Será que existe outro débil que acredite em azar? Provavelmente não, na verdade nós usamos esses termos pra justificar tudo de ruim que acontece conosco e com as pessoas ao nosso redor. Afinal de contas, sorte e azar são coisas intrínsecas à própria vida, assim como vida e morte. Ninguém vive o tempo inteiro sorrindo, feliz, e de bem com a vida. Seria uma merda, muito chato, muito monótono. O que resgata o gosto pelas coisas, é exatamente esse ciclo de desgosto pelas coisas, e a pós-depressão, que lhe dá o prazer aflorado de viver novamente as mesmas coisas, só que com um ar revigorado.

Vida e morte. Felicidade e depressão. Sorte e azar. Pontos em comum do ser humano. O ponto de vista é vital nessa questão. Felicidade para alguns é poder sair de casa para ver o céu estrelado, enquanto para outros é torrar 2 milhões de dólares numa “turnê” pela Europa. Mas mesmo com essa escala quantitativa de diferença, a sensação causada é praticamente a mesma. Assim como a depressão e a decepção, por ter que deixar de ir, ou perder. A morte é isso. A sensação de morte é isso. O nosso consciente parece ter um mecanismo de esquecimento sobre essa questão. Ficaríamos malucos se todos os dias colocássemos a morte como pauta de vida. Mas tem dias que é impossível não pensar na morte. A morte é esse colapso todo de questões dúbias e sem resolução. Deixo as larvas resolverem essa questão, se for de serventia útil, que minha carne também sirva de alimento as pequenas larvas desse solo fértil.

Vinicius Canova Pires

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Normalidades ao acaso

O fumante e seu cigarro. O tatuado e sua tatuagem. O ébrio e sua bebida quente. O drogado e suas “norcotoxinas”. O flagrado e o flagrante. É sobre isso que estou falando. O hábito, a sensação costumeira oriunda daquilo que ontem poderia ser flagrante e hoje se torna cabal. Ah! A criança. Na nossa melhor época, na nossa melhor idade, imprescindível era o dom da dúvida. Livre arbítrio – com toda a extensão que esse termo pode alcançar –, a decisão, o tato, desconhecer a abstinência dos vícios físicos e psicológicos. Desconhecer o fracasso, ou pelo menos estar absolvido as conseqüências do mesmo, resguardo familiar, respaldo de toda a sociedade.

Hoje, infelizmente é diferente. Depois da infância os hábitos e as descobertas são peneirados e tornam-se assim, vícios. Perdemos toda aquela autonomia de decisão sobre o que fazer, e o que aprender no dia-a-dia. Não sou fã da expressão “força de vontade”, não desrespeitando os que confiam piamente nela, mas creditando ao todo que me baseio. Se deixamos o mundo em que vivemos deixar de ser trivial e tornar-se fator primordial, é porque a tal “força de vontade” não atuou na tentativa de impedir, e sim, compactuou com a nossa degeneração. Criando assim, nossos hábitos mórbidos e desregulados. E aí, surge a dúvida: Se começamos por vontade, como podemos dizer que essa mesma vontade pode efetivamente mudar de uma hora pra outra?

Acredito em mudanças, sim. Mas também acredito que somos muito fiéis aos nossos vícios. Tão fiéis que mesmo que se toda nossa vontade corporal exprima a vontade de largar, e a própria parte da mente que diz respeito ao pensamento mero e superficial, mantenham a decisão física, o nosso subconsciente não nos deixa viver em paz, até que se tenha uma visão nova e também “costumeira” de outros hábitos. A força de vontade nada mais é que substituir um vício pelo outro. As diferenças entre eles, podem ser muitas, como também podem não ser nada. Um cigarro de maconha por cigarros, cigarros por comida, bebida por religião, roubo por trabalho. Um vício pelo outro, deixar de se entregar a uma coisa, por outra. No final das contas, nada muda. Felicidade? Como assim? Bobagem!

Nossos vícios nos sustentam. Eles caracterizam quem nós somos, e largá-los – no caso, substituir –, nada mais é que dar margem a uma nova caracterização, não menos ridícula, ou não melhor do que somos ou deixamos de ser. Esse texto é base em perspectivas minhas quando divago em introspecção. Diz respeito ao que sou, e ao que penso representar o resto das pessoas. O que penso nada mais é, que a vontade de não relevar questões viciosas. Compreender sim, a cerne de todas as questões, mas tentar compreender, não. Quem somos, e o que somos, só diz respeito a nós mesmo. E creio eu, em todas a minha ignorância, que somos os únicos capazes(de forma limitada) de decifrar-nos. -nosos capazes(de forma limitada) de decifrar-nos.

Vinicius Canova Pires

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Déjà vu: Nostalgia. Viagem a um lugar longínquo e parcialmente esquecido.

O Grêmio copeiro e praticamente imbatível de meados da década de 1990 sob o comando de Felipão. Em pé estão Arce, Danrlei, Rivarola, Adílson, Luciano e Carlos Miguel; agachados vemos Dinho, Jardel, Luis Carlos Goiano, Paulo Nunes e Alexandre Gaúcho

Em minha infância mal esclarecida, entre idas e vindas de um estado para o outro, ou de um espaço menor, uma cidade até a outra, peneirei algumas lembranças que até hoje vivem em mim. São elas: Vó Geni, Tio Kiko, chimarrão, frio, reuniões de família (informais), e claro, GREMISMO, muito do bom e puro GREMISMO. Apesar de o futebol ser assunto sério no Rio Grande do Sul, e praticamente incutir que a hereditariedade prevalece uma corrente única – ou vermelha, ou AZUL –, comigo foi diferente. Meu avô Antenor Pires, era um gremista fanático, frustrou-se ao saber que não poderia ludibriar o filho mais velho a tornar-se um gremista, já que os irmãos do seu pai, havia muito, já o seduziam com a indumentária colorada.

Comigo não foi muito diferente, com a exceção de que meu pai já frustrado, com a perda do seu filho primogênito às três cores do GREMISMO, me deixou viver sem influências do time alvirrubro, me deixando à mercê do meu tio fanático, porém, muito pobre. Fui me cativando pelas cores do manto, criando admiração pelos pôsteres que meu tio colecionava recordação póstuma do meu grande avô. Pra melhorar, meu interesse pelo futebol foi crescendo à medida que eu visitava a casa da minha avó, e assistia a uma cena que se repetiu durante muito tempo: Uma televisão ligada transmitindo ao jogo (sem som), um rádio ligado fazendo a transmissão do mesmo jogo, só que com uma narrativa mais parcial e empolgante, uma cama de casal, meu tio, e a felicidade. Minha empolgação durou concomitantemente à ascensão do Grêmio. Em 95, uma alegria e uma tristeza, tristeza que não nos abateu, nos levando à outra alegria logo em 96. Uma libertadores, vice-campeão mundial, e um campeonato brasileiro.

Doze anos depois, as imagens, as pessoas, as alegrias, voltaram à tona hoje. Meu dia cada vez mais escasso, limita o meu acesso ao futebol de forma completa. Vejo alguns jogos, quando não dá, assisto aos compactos, quando não dá, leio todos os blog’s esportivos, inclusive as criticas – e claro, existem muitas –, mas não deixo mais de acompanhar cada passo do meu glorioso Grêmio, na boa e na ruim. Eu espero sim, como todo bom gremista, o tricampeonato brasileiro esse ano. Porém, com todas as alegrias que tive até então, me contentaria unicamente com uma vaga na libertadores em 2009, a obsessão, como assim definiu Cristian Bonatto*. O Grêmio mais uma vez, demonstra que a camisa, a torcida, e o apoio são completamente essências. Aderir à uma causa, acreditar nela, é a única forma de se ver parte de alguma coisa, de deixar de se sentir alheio a tudo. E nesse meu pequeno mundo de frustrações, idéias e devaneios de pura inflexibilidade, tenho algo em meu coração em que acredito, e apesar de para alguns aparentar futilidade, para mim, também é obsessão. Grêmio ontem, hoje, amanhã e sempre, na boa e na ruim. “La Copa, se Mira y no se toca”.

*Redator do Blog do Torcedor no Globoesporte.com, página do Grêmio.

Vinicius Canova Pires

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Apresentações;















- Creio que para uma apresentação mais plausível, deveria sintetizar toda a informação e um texto pequeno, e de fácil compreensão. Mas é uma tarefa nada fácil, se eu tiver que espanar os acontecimentos antecedentes à gravação semi-profissional de nosso primeiro EP acústico. Na verdade eu (Vinicius) e o meu amigo Pedro Ivo, somos totalmente despretensiosos musicalmente falando. Porém, convenhamos que a vontade de fazer música, somada ao gosto diversificado, mas ao mesmo tempo parecido, nos deu respaldo musical mesmo com a máscara do amadorismo. Em 2005 durante férias inusitadas em Salvador, na companhia do meu amigo querido, Pedro Morais, vulgo Bolovo, toquei violão horas a fio para poder compor alguma coisa “interessante”.

A idéia saiu, ficou bom, mas ficou vazio. Faltava algo que enxertasse e deixasse a música com uma tônica diferente, algo que não caísse nos enlatados de cantorias melosas, tampouco que só estampasse uma figura de voz melódica e sem movimento. Foi então que na minha frustrada investida de ir ao show do Deftones em São Paulo, entrei na comunidade que já “esquentava” nos bastidores, especulações, idéias, encontros, amigos, encontrei meu amigo Pedro Ivo. Tímido, dava sugestões, algumas idéias, mas falava pouca coisa, não havia demonstrado um pingo de vocação musical e mesmo assim, conversando um pouco aqui, e ali, descobri que o cara era um típico autodidata, musicalmente falando. Seu timbre de voz, a vontade de criar, o inglês assíduo, fez com que amadurecesse a vontade de mandar minha gravação do que seria posteriormente chamado de “Just another day” e logo “Hanged”.

Claro, que esqueci de mencionar que isso tudo há mais de 3.000 KM de distância, na Capital de Rondônia e ele em São Paulo. Amadurecemos a idéia de um projeto a longo prazo, que demonstrasse todo o teor de nossas vontades musicais. E assim foi dada à largada ao projeto. Enfim, tive a oportunidade de conhecer São Paulo. E também a sorte de conhecer um grande amigo, que posso chamar com toda segurança de irmão. Criamos outras 7 músicas, dia e noite, criando no violão, e ele compondo no vagão do metrô, em direção do trabalho.

Não perdíamos tempo. O resultado de nossas experiências, trabalho, cansaço, e muito, muitooo café, você confere no: http://www.purevolume.com/droucan

”O homem bitolado e padronizado dá lugar à um ser completo, e cheio de idéias.”

Pedro Ivo

Vinicius Canova Pires

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O palhaço do circo sem futuro




















Que me perdoem os integrantes do Cordel do Fogo Encantado pela ausência de minha criatividade para dar origem a um título original. Mas acho que o próprio José Paes de Lira, já me considera absolvido diante das minhas justificativas para escrever um texto embasado em seu título. Em um de seus shows orneados com tramas teatrais, Lira conta a história de um palhaço moribundo, que recebe o seu filho em leito de morte. Segue-se a narração da história e conseguinte, o diálogo:


“Tudo começou quando o filho, morria de vergonha, porque o pai era palhaço de um circo sem futuro. E ele cresceu sem dizer onde era que o pai trabalhava para os amigos. Sempre muito envergonhado, cresceu com a vida muito amargurada, se formou em outra coisa, e um certo dia recebe a notícia, de que seu pai está no leito de morte. Ele corre até lá, entra no quarto, tira a gravata, tira o paletó, se ajoelha e diz: - Pai, me ensina a ser palhaço? - Pai, me ensina a ser palhaço? - Pai, me ensina a ser palhaço? - Isso não se ensina, seu bosta!”

Faz muito tempo que não sinto tanto êxtase ouvindo ou lendo um prelúdio, quanto senti com O palhaço do circo sem futuro. Sou adepto da teoria de que boa música lav’alma. Um palhaço. Um sorriso. A natureza desse sorriso. A disposição para sorrir. A tristeza. A fraqueza. A morte. E por fim, a insignificância e o esquecimento súbito. Quantos de nós somos palhaços de circos aleatórios e mesmo assim, sem futuro? E quantos de nós ainda insiste em querer aprender como ser um palhaço? E quantos milhões de nós, fazemos parte desse mesmo espetáculo circense que se chama vida, só que em papéis diferenciados, como as próprias marionetes? O que compreende ao texto de Lira, é que não é possível haver metamorfose em nossos papéis. O homem fechado, enclausurado para a vida, para idéias, para o dia-a-dia é responsável pelo seu desfecho “amargurado”.

Há de se compreender também ao próprio prelúdio que se trata de uma metáfora sobre valores morais. O texto passa à quem escuta a fascinação e inclusive encarnar mentalmente a cena. Eu por exemplo, fiz uma série de questionamentos sobre palhaços, desinteresse, morte, vida, abusos, acasos, morbidezes, e exageros. Apesar de Nação Zumbi caracterizar mais a cara de Chico Science pela continuidade póstuma de seu trabalho, creio que O Cordel do Fogo Encantado surpreende, e trato hoje Lira, como um excelente retrato da música brasileira, anexando peças teatrais e todo um espetáculo circense. E com toda a dramatização, não caí no estereótipo efusivo das demais tentativas. Sou um palhaço do circo sem futuro, você não. Quer aprender? Isso não se ensina, seu bosta!

Vinicius Canova Pires